Pá Pá Pá

by GANSO

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1.
Conversas repetidas, Não sei se as tive cá ou noutras vidas. Não sei se estive lá, se são ouvidas. Já não evito mais conversas lidas. E esta? P’ra caras não tenho memória, Cada nome equivale a uma história, Envelheço no meio de conversas, Fala comigo que eu tenho um bom ouvido. Conversas repetidas, Não sei se as tive cá ou noutras vidas. Não sei se estive lá, se são ouvidas. Já não evito mais conversas lidas. E esta? Não saias enquanto eu me interesso Por outras histórias onde eu tropeço. Conta a tua, depois conto-te a minha. Não peças mais conversas, Dá-me as peças que eu recomeço Conversa que se repete, Já sei que lhe vou dar razão. Quando a opinião reflete, Já sei o que espero de antemão. Ai que bom que é divagar Quando o tempo passa por mim tão devagar E o sentimento é tão bom Que eu nem me lembro quem sou E ouço seja quem for.
2.
Tubarão, não venhas ao rio. Tu tens a bazófia do mar, O teu surf não é para o Nilo Que isto não é lugar p’ra ti meu. Crocodilo, não saias do mar. Meu amigo, bora apanhar Ondas a seguir ao jantar E no fim dá p’ra cantar só: “Pá Pá Pá...” Eu sou um Grilo do Nilo. O truque é tar tranquilo. Pergunta ao Crocodilo. Tenho a prancha do faraó. Surfo em ré, lá, sol, fá, si, dó. Tou no rio, pr’oceano não vou. Que isso não é lugar p’ra mim meu. Pôr do sol p’ra nos entreter. Olha aquela pirâmide ali. Sei que não me vou esquecer Que no fim deu p’ra cantar só: “Pá Pá Pá...” Eu sou um Grilo do Nilo. O truque é tar tranquilo. Pergunta ao Crocodilo.
3.
Hoje acordei com pouca vontade, Já sei que não vou ver ninguém. Quem vem de lá traz pouca saudade E as mãos a tremer também. Recorro à cafeína, água, multivitaminas Mas ela tá cá p’ra ficar. Já vi que esta menina não traz adrenalina, E agora só me resta estar. Eu já não sei se venho resistir ou se vou ficar bem. Eu já tentei seduzir mas tenho que acatar também. Merda da grossa só me cria mossa, Ainda me lembro de ti. Fui de carroça p’ra terra da troça, Já nem sei bem o que vi. Eu já não sei se venho resistir ou se vou ficar bem. Eu já tentei seduzir mas tenho que acatar também. Sono só sobe quando a maldita já não me descobre. Sono só sobe quando a maldita já não me descobre. Sono só sobe quando a maldita já não me descobre.
4.
Brad Pintas 04:03
Brad Pintas entra no café. Não dás por nada e ele já está ao pé de ti. Conta uma história que te faz sorrir, Não era bem uma anedota, era mais para a risota e Cuida bem de ti, Oh Brad. Brad Pintas entra na navette, O seu discurso é fita de cassete já vi. Tranca o trinco e trinca outras sete, Não perde tempo, arruma o canivete ali. Cuida bem de ti, Oh Brad. Brad Pintas vai ao botequim, Pede um gin tónico que hoje é dia sim, assim, Amor platónico é esquecido ali. Já não há gajas por quem dava um rim. Tchim- tchim. Cuida bem de ti São tantas histórias que contas, Já perdi a conta. São só vivências a desaparecer. É p’ra esquecer, é p’ra esquecer, é p’ra esquecer. Brad Pintas entra no hostel, Não tem papel mas saca do farnel assim. Ilude loiras, diz que é lua-de-mel. Não tem brilho nem gatilho pró carrossel. Cuida bem de ti, Oh Brad. Brad Pintas foi ao hospital, Depois do sol nascer, o animal Julgava que aguentava o Carnaval. Fazer da vida feira de Sevilha corre mal. Cuida bem de ti São tantas histórias que contas, Já perdi a conta. São só vivências a desaparecer. É p’ra esquecer, é p’ra esquecer, é p’ra esquecer.
5.
Tanto Faz 02:25
Já são seis e agora sei Que amanhã não vou colar e vou ficar A arrumar e organizar, Ter sentido de orientação p’ra não me perder. No caminho que me traz desatino sem o qual não posso tecer O destino que tanto imagino não é o mesmo onde eu vou aparecer. Já não sei se vou aqui se vou ali, De onde eu venho é que eu tou bem. Tinha planos que nunca mais vi. Já pensei, pensei, pensei. Já só sei não ser assim. Trabalhar, deambular, não sei, caguei. Tá na hora de acordar, P’ra depois adormecer, sonhar, morrer. No caminho que me traz desatino sem o qual não posso tecer O destino que tanto imagino não é o mesmo onde eu vou aparecer. Já não sei se vou aqui se vou ali, De onde eu venho é que eu tou bem. Tinha planos que nunca mais vi. Já pensei, pensei, pensei.
6.
Domingueira 04:57
Eu hoje sinto-me engraçado, Que tudo o que se passa tem graça Mas passa a ser passado. Eu hoje sinto-me apressado, Que tudo tem interesse e me convence A não ficar parado. Mas nada disso interessa e a pressa Não me leva a nenhum lado Não consigo ver o que está mal (Já não é nada), Se é do excesso ou falta de normal (Não tem piada). Vou mas é cuidar do meu quintal. Mas nada disso interessa e a pressa Não me leva a nenhum lado Eu hoje fui atropelado. Achei que era seguro o meu futuro, Estou mal habituado Eu hoje sinto-me entalado. Achei que era diferente o meu presente, Olha fui fodido p’lo passado. Mas nada disso interessa e a pressa Não me leva a nenhum lado. Não consigo ver o que está mal (Já não é nada), Se é do excesso ou falta de normal (Não tem piada). Vou mas é cuidar do meu quintal. Mas nada disso interessa e a pressa Não me leva a nenhum lado
7.
8.
Ando monossilábico E não passo do estático. P’ra quê combinar? Tenho a expectativa Que a cura passiva Seja deixar andar. Isso não soluciona Quando a rua é toda Feita p’ra me empatar. Tento toldar a vista, Ignorar a pista Que devo aceitar O que há por cá Deves achar estranho o meu empenho Em alimentar. Agora que te entranho, já acho que tenho De te desligar. Sei que aqui há diferença e não pertence Ao que vou lembrar. Posto isto eu aposto Embora não goste Vens p’ra ficar. Não tens muita atitude, A mim falta virtude Para nos ocupar. Não sei matar o tempo. Na verdade, nem tento. Isso já satisfaz. Contento-me com o médio E abraço o tédio Da tua condição. Lá no fundo a minha É recordar o que eu tinha E nem prestar atenção. Ao que há por cá Deves achar estranho o meu empenho Em alimentar. Agora que te entranho, já acho que tenho De te desligar. Sei que aqui há diferença e não pertence Ao que vou lembrar. Posto isto eu aposto Embora não goste Vens p’ra ficar.
9.
Calafrio 04:11
Depois da agitação de um longo dia, Vais dar ao centro da hemorragia. Abriste a porta a casa está vazia. Nem p’ra pedir comida o gato mia. Falar com as plantas traz-te inteligência Se ouvires as vozes tens clarividência. Ligas o rádio ja nem dás p’la ausência Da vida consumida p’la demência. Se eu disser que só estou cá na minha, Não vão querer acreditar. Vão dizer-me o que fazer, Vão controlar o que eu comer Mas eu estou bem

credits

released April 5, 2017

cucamongadiscos.bandcamp.com
CM0006


Agradecemos, em primeiríssimo lugar, ao lendário Diogo “Horse” Rodrigues que sempre tratou deste disco como se fosse dele. Ao Diogo, fazemos uma vénia pelo empenho, paciência e carinho que o caracterizaram durante as gravações. Agradecemos aos Fausto que foram acompanhando o processo, ajudaram e sempre se mostraram prestáveis. Agradecemos ao Fernão Biu e ao Pedro “Pica” Serralheiro, cujas habilitações instrumentistas foram requisitadas. Agradecemos ao Joaquim Quadros, aos nossos pais, aos nossos familiares e aos nossos amigos.

Convidados:
Clarinete em “Quando a Maldita”, “Tanto Faz” e “Domingueira” e flauta transversal em “Tanto Faz” por Fernão Biu
Congas em "Conversas Repetidas", “Brad Pintas” e “Dança de Sabão” por Pedro Serralheiro
Percussões por Diogo Rodrigues

Produzido pelo Diogo Rodrigues
Masterizado pelo Miguel Pinheiro Marques
Arte e design pelo Francisco Ferreira

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GANSO Lisbon, Portugal

Luís Ricciardi, Miguel Barreira, João Sala, Thomas Oulman,
Gonçalo Bicudo

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